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A criança que eu fui ainda participa das minhas escolhas

há 10 horas
2 min de leitura

Talvez amadurecer não seja silenciar essa parte. Talvez seja dar a ela ferramentas melhores.


Tem uma fase da vida em que a gente pergunta 'por quê?' para tudo. Não é uma pergunta estratégica, elegante ou formulada para parecer inteligente. É curiosidade em estado bruto. Por que isso é assim? Por que não pode ser daquele jeito? E se eu fizer diferente? Depois a gente cresce e, aparentemente, uma das entregas da vida adulta é substituir boa parte desses 'por quês?' por uma coleção respeitável de 'é melhor não'. É melhor não falar isso, não mudar agora, não parecer exagerada, não tentar sem garantia, não sair da linha porque, se todo mundo está fazendo igual, alguma razão deve existir.

Não acho que amadurecer seja voltar a ser criança. Seria operacionalmente desastroso. A criança não paga imposto, não responde cliente, não calcula margem e provavelmente considera biscoito uma refeição perfeitamente defensável. Mas acho curioso como, em nome da maturidade, a gente vai amputando justamente algumas características que depois passa anos tentando recuperar em cursos de inovação, criatividade, liderança e desenvolvimento humano. Curiosidade, imaginação, coragem para testar e liberdade para admitir que não sabe viram competências sofisticadas depois que passamos décadas sendo ensinados a escondê-las.

Talvez seja por isso que eu tenha tanta implicância com respostas prontas. A pergunta sempre me interessou mais. Por que todo mundo está fazendo desse jeito? Quem decidiu que isso funciona? Funciona para quem? O que acontece se eu organizar diferente? O que estamos chamando de problema apenas porque nos acostumamos com determinada solução? Boa parte do meu trabalho nasce desse tipo de incômodo. Não de uma vontade adolescente de discordar por esporte, porque a idade já me ensinou que algumas paredes existem porque seguram o teto. Mas também ensinou que outras continuam de pé apenas porque ninguém teve paciência de perguntar por que ainda estão ali.

A criança pergunta sem medo de parecer ignorante, enquanto o adulto aprende rapidamente a fingir que entendeu para preservar reputação. A criança cria antes de consultar algoritmo, benchmark, tendência e opinião alheia; o adulto começa a calcular reação antes mesmo de terminar a ideia. A criança tenta, erra, inventa e volta. O adulto pesquisa tanto sobre a possibilidade de tentar que, quando termina, já surgiu uma nova tendência e ele pode iniciar outra rodada de pesquisa. É uma eficiência admirável para não sair do lugar.

A maturidade, para mim, começou a parecer menos uma substituição e mais uma parceria. A curiosidade continua perguntando, a experiência ajuda a separar o que merece investigação daquilo que é apenas distração, a criatividade imagina possibilidades, o repertório calcula impacto, a coragem empurra e a estratégia decide o tamanho do risco. Não quero preservar ingenuidade nem impulsividade. Quero preservar a capacidade de olhar para uma realidade conhecida e ainda enxergar alguma coisa que não estava pronta.

A vida adulta já tem gente suficiente nos ensinando a caber. Cargo, currículo, expectativa, mercado, algoritmo, opinião alheia, planilha e boleto são extremamente eficientes em criar contorno. Talvez a criança que a gente foi ainda sirva para lembrar que contorno não precisa virar prisão. Ela pode continuar sentada à mesa, só que agora com mais repertório, melhor senso de consequência e, se depender de mim, uma xícara de café que obviamente ela não pode beber. Algum limite precisamos manter.


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